Membros da FAO discutem a insegurança alimentar na América Latina
- ufrgsmundi
- 20 de out. de 2024
- 3 min de leitura
BBC
Feito por Laura Dalmolin e Theo Allgayer
As sessões de hoje (19) na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) rapidamente assumiram contornos tensos. Desde as primeiras declarações, ficou evidente o ressentimento de países como Brasil, Honduras, Peru e Bolívia em relação às potências desenvolvidas, especialmente seus antigos colonizadores. Segundo esses países, medidas efetivas para mitigar os impactos da fome em seus territórios nunca foram implementadas.
Em sua defesa, as delegações de Canadá, Espanha, França e Reino Unido argumentaram que "buscar culpados não ajudaria a criar uma solução", preferindo evitar o foco na herança colonial.
À medida que o debate avançava, surgiram algumas propostas. A Rússia ofereceu o fornecimento de fertilizantes para aumentar a produtividade do solo latino-americano, mas a ideia foi recebida com resistência devido às novas regulamentações que restringem o uso de agrotóxicos. Por outro lado, a Costa Rica sugeriu a criação de "Casas de Cultura" para preservar e transmitir a memória dos povos originários.
No meio do debate, a delegação de Portugal, que até então estava ausente das conversas, chegou com um discurso em defesa dos países desenvolvidos, tentando relativizar os problemas discutidos. Isso ofendeu profundamente as delegações latino-americanas, que consideraram a postura de Portugal desrespeitosa e insensível às questões históricas e sociais da região.
Ao fim do primeiro dia, embora o debate tenha sido intenso, poucas soluções concretas foram apresentadas. A proposta mais viável até o momento envolve a educação sobre os povos originários nas escolas, para aumentar a compreensão dos problemas históricos e sociais enfrentados por essas populações. Contudo, países como Brasil e Equador permanecem céticos quanto à eficácia desse projeto.
A BBC entrevistou o delegado da Costa Rica, que explicou melhor sua proposta de Casas de Cultura:
1. Explique melhor sua proposta de criação de Casas de Cultura."Minha ideia para as Casas de Cultura vem de uma entrevista da filósofa Marilena Chauí, onde ela mencionou a implementação dessas casas pela prefeita Luiza Erundina na periferia de São Paulo. Essas casas serviriam não só como um espaço para a preservação da memória cultural, mas também como um local onde a população pode se reconectar com suas raízes, especialmente aqueles descendentes de povos indígenas e retirantes nordestinos. Minha proposta é expandir esse modelo para outras capitais da América Latina, permitindo que a população perceba que suas origens vão além do modo de produção capitalista predominante, e que eles são herdeiros de modos de vida e culturas diferentes."
2. Como as Casas de Cultura melhorariam a vida dos povos nativos?"As Casas de Cultura seriam uma forma de garantir que os povos nativos possam transmitir sua memória e preservar suas terras. Para essas populações, a alimentação é mais do que uma mercadoria: é uma conexão cultural. Não se trata apenas de distribuir comida, mas de garantir que eles possam produzir seus próprios alimentos e, com isso, perpetuar suas tradições e conhecimentos. A ideia é criar um espaço onde essa memória seja preservada e compartilhada, conectando o interior da Amazônia a grandes centros urbanos como São Paulo."
3. Como as Casas de Cultura poderiam ajudar na distribuição de terras para os povos originários?"Essas casas ajudariam a conscientizar a população sobre a importância da memória e da luta política. Ao resgatar as histórias de colonialismo e genocídio, elas permitiriam que as pessoas se identificassem com essas lutas e compreendessem a urgência de impedir que essas atrocidades continuem. Seria um espaço para popularizar o discurso contra o colonialismo, tanto o passado quanto o presente, e fortalecer o movimento por justiça e recuperação de terras para os povos originários."
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